sexta-feira, 24 de outubro de 2008

ANALÍSE DE P1, (a) & (b)
(OS TIPOS DE PROPOSIÇÕES, CV & JUSTIFICAÇÃO)

(24.10.2008)

[§25] Um conceito central no Trilema é P1, a proposição original. É a necessidade de justificação desta proposição que, de resto, motiva todo o Trilema, que argumenta exactamente no sentido da impossibilidade dessa justificação que ele toma por necessária. Legítimo é pois que nos perguntemos: «O que é P? Qual a sua natureza?». É a esta questão - bem mais relevante do que se poderá, à primeira vista, pensar - que dedicaremos os próximos parágrafos.

[§26] Kant, na introdução à sua Crítica da Razão Pura, procedeu a uma qualificação sistemática dos vários tipos de proposições possíveis. Pela abrangência da sua análise, servir-nos-emos das distinções traçadas por Kant nessa sua obra.




A PRIORI

EMPÍRICOS ou A POSTERIORI


ANALÍTICOS


"In all judgements in which a relation between subject and predicate is thought, [...] this relation is possible in two ways. Either the predicate B belongs to the subject A as something which is (covertly) cointained in the concept A [...] nothing is added through the predicate to the concept of the subject, and the concept is only analysed and broken up into its constituent concepts which had all along been thought in it (though confusedely)..." (B10-11; 43)

"...it would be absurd to found an analytical judgement on experience, because, in order to form such a judgement, I must not step outside my concept, and I need not appeal to the testimony of experience." (B11; 44)


SINTÉTICOS


§34 onwards

"Empirical judgements, as such, are all synthetic." (B11; 44)

legenda: a primeira referência para o texto usa as marcações universais, a segunda remete para a página da edição usada (vide bibliografia abaixo).

[§27] Por ora (mesmo se se trata de um «por ora» assaz curto), deixaremos de parte os P-SA (proposições sintético-apriorísticas), contra cuja existência alguns, sem grande sucesso, pensamos, tentam argumentar. Visto que P-AE (proposições analítico-empíricas) são impossíveis pela própria definição de «proposição analítica», resta pois analisarmos P-AA (analítico-apriorísticas) e P-SE (sintético-empíricas). No nosso Trilema, P parece poder pertencer a {P-SE}, isto é, todo o conjunto de P-SE possíveis. De facto, sendo proposições que assentam na experiência, pode-se, pelos mais variados métodos (o génio maligno de Descartes, e.g.), questionar a proposição imediata em que assentam, a saber: que existe um mundo físico & material exterior a S.

[§28] Note-se que não afirmamos que tal mundo não exista: pura e simplesmente constatamos como toda a P-SE, se se perguntar pela sua justificação, terá como uma das suas premissas a existência do mundo exterior, premissa essa que pode ser questionada. Se mais tarde se consegue provar ou não a existência desse mundo não é para aqui chamado, não porque isso não seja relevante para o nosso argumento - tudo o que pretenda poder provar-se é, obviamente, importante para nós, pois, a confirmar-se tal pretensão, triunfaria sobre o Trilema -, mas tão simplesmente porque essa «justificação» ou seria circular (confirmando-se (2)) ou então encaixaria numa das duas possibilidades de refutação de (1) apresentadas quer em §16 quer em §17. O que interessa é que, se P1 for do tipo P-SE, então está claramente sujeita ao Trilema e só se livrará dele se conseguirmos provar que o Trilema em si está errado.

[§29] Avancemos agora para o estudo das P-AA. Argumentaremos que estas são proposições radicalmente diferentes das anteriores. Parece-nos que a este tipo de proposições não se pode pedir justificações, pela simples razão de que elas não têm, a nosso ver, qualquer relação com o real (ora aquilo que não pretende ser verdadeiro - que na enunciação do Trilema representámos como (a) -, e ser verdadeiro significa aqui ter correspondência no real[1], como pode sequer pretender poder ser justificado?). Tentemos explicar isto.

[§30] P-AA são normalmente assimiladas a definições, que constituem talvez o mais feliz e straightforward exemplo do que é uma P-AA. Assim, consideremos as seguintes proposições:
P-AA1: Um quadrado é uma figura geométrica de quatro lados isométricos.
P-AA2: Um anão é um homem pequeno.
P-AA3: Um viúvo é um homem cuja mulher morreu.
Seríamos inicialmente tentados a rotular todas estas afirmações de verdadeiras ((a), não esqueçamos). Mas (a) significa, de acordo com a definição simples dada em §29, ter uma relação com o real. Ora nenhuma destas proposições tem uma relação com o real: são meras definições, usos da linguagem. Se eu dissesse
P-AA1a: Um quadrado é uma figura geométrica de três ângulos que perfazem 180º.
P-AA2a: Um anão é um homem enorme.
P-AA3a: Um viúvo é um homem cuja mulher tem a mania de andar ao pé cochinho de cócoras.
também isto são proposições tão «verdadeiras» quanto as anteriores, o que é o mesmo que dizer que não são verdadeiras de todo. P-AA2a só é «falsa» (note-se as aspas!) na medida em que se estabeleceu (note-se o itálico!) que P-AA2 era «verdadeiro» (outra vez as aspas). O estabelecimento por consenso, no entanto, não é, lamentamos informar, garantia de verdade/mentira; com toda a certeza, neste caso, não o é.

[§31] O que é necessário entender é que estamos perante definições. "Rosa" é um termo pelo qual nos referimos regra geral a um objecto, que acontece ser uma flor, normalmente encarnada, com espinhos e outras coisas que, quando vemos uma, se nos pedem que identifiquemos o que vemos, responderemos: «rosa». Porém, pode amanhã a rainha resolver promulgar um édito de acordo com o qual o objecto anteriormente conhecido por "rosa" passará a ser, doravante, chamado de "macaquinho". A ideia não é disparatada: aconteceu pelo menos duas vezes, que eu tenha conhecimento: em Portugal e na Oceânia. Em Portugal, aboliu-se a palavra "vermelho", substituída por "encarnado" (ao que obrigam os comunas e dá na telha ao salazar!) e, do mesmo modo, a outra senhora definiu que "usocapião", que devia ser masculino, como diz o instinto, seria, na realidade, feminino, género que guarda até aos dias de hoje. Na Oceânia, desenvolveu-se toda uma novilíngua com o objectivo explícito (e bem conseguido) de controlar ainda mais as pessoas, em que conceitos como "mau" foram erradicados (porque o Grande Irmão só pode ser "bom"). Ora, a realidade, tanto quanto nos é possível saber, tanto quanto o considera o senso comum, e tanto quanto a maioria dos filósofos pensa (poderão ter duvidado da existência dela, mas terá algum duvidado do que eu agora vou dizer? Penso que não - o leitor que me indique algum, se conhece, por favor: não quero fazer mentiras); a realidade, dizia, não é algo que a rainha possa decidir por decreto: existe e impõe-se sobre nós, incapazes de lhe resistirmos (posso fechar os meus olhos, mas continuo a sentir-me); ela é, para utilizar a terminologia cartesiana (Meditações, III.38), uma ideia (ou mais que uma ideia) adventícia, isto é, ela vem até mim. E nisto, por exemplo, difere radicalmente de qualquer P-AA. Assim, P-AA1a pode ser «verdadeiro» (aspas!) se eu definir "quadrado" da maneira apresentada (e, já agora, disser que "triângulo" é uma figura com quatro lados isométricos). P-AA não têm nenhuma relação directa com o real: são apenas maneiras convencionais (isto é, emergem por convenção) de nos referirmos ao real. No fundo, estamos perante a lembrança de Magritte: ceci n'est pas un pipe. Um cachimbo pintado não é um cachimbo, da mesma maneira que o termo "cachimbo" não é um cachimbo nem com o objecto físico em si mantém qualquer contacto que não um meramente convencional e arbitrário (a não ser que sejamos cratilistas - os meus heterónimos, de uma maneira geral, são-no: eu, ortónimo, condenado à Filosofia, não).

[§32] Tomemos agora a seguinte proposição:
P-AA4: Os olifantes são paquidermes quadrúpedes.
Para além da proposição ter um predicado tautológico ("paquidermes" implica que sejam "quadrúpedes", é como que uma P-AA dentro da P-AA maior, a P-AA4 - mas ignoremos isto, para aqui sem interesse, por favor), a maioria das pessoas, confrontada com esta afirmação, diria que ela é - verdadeira! O ponto de exclamação serve para exprimir o espanto de ver gente a dizer que é «verdadeira» uma afirmação sobre um ser d'O Senhor dos Anéis. Confrontadas com a proposição:
P -AA4a: Os olifantes são paquidermes bípedes.
Responderiam que a proposição era falsa. Que se use os conceitos de «falso» e «verdadeiro» para algo que, para começar, nem existe, deve-nos fazer no mínimo suspeitar da propriedade de os aplicar a proposições desta natureza, que é exactamente o que temos estado a tentar provar. Da mesma maneira, ridículo seria exigir uma justificação, (b), de porque é que P-AA4a é falsa, (~a). P-AA4a só é «falsa» em virtude de eu ter tomado P-AA4 como «verdadeira». Convenção, tudo é convenção, estou convencido. O que significa aqui «falso» ou «verdadeiro»? São conceitos usados com ambiguidade, mais que isso, com falta de propriedade, pois definimos «verdadeiro», em §29, como aquilo que mantem uma relação - afirmativa, acrescentamos agora - com o real. São brincadeiras linguísticas como estas que, levadas a sério, sem serem discriminadas filosoficamente, permitiram essa coisa peregrina que é o argumento ontológico a favor da existência de Deus. Dicker (1993: 169-174) mostra isto muito bem, trabalhando a distinção de Carnap entre material mode of speech (MMS) e formal mode of speech (FMS). Todos os exemplos de P-AA que vimos até agora, arriscamos mesmo dizer quaisquer exemplos de P-AA foram e serão sempre no FMS (por falta de tempo e porque apenas serviria para chegar às conclusões já enunciadas, não explicitamos aqui a distinção entre MMS e FMS - mas também a ela, em princípio, não recorreremos mais).

[§33] Podemos pois afirmar que P-AA estão para lá de qualquer justificação, pelo facto de que seria absurdo tentar justificar o que quer que está para lá da verdade ou mentira. Significa também que {P-AA} (a sequência de todos os P-AA possíveis) não é uma materialização razoável de P1. P1 nunca fará parte de {P-AA}.

[§34] Resta pois agora considerar as P-SA. Estes são proposições, de acordo com Kant, que "turn and twist our concepts as we may, we could never, by means of the mere analysis of our concepts and without the help of intuition" chegar a elas (B16; 47). Kant apresenta alguns exemplos. Consideremos o seguinte, sobre o qual, por sua vez, nós trabalharemos:
That the straight line between two points is the shortest is a synthetic proposition. For my concept of straight constains nothing about quantity, but only a quality. The concept of shortest is, therefore, entirely added, and cannot be extracted from the concept of a straight line by any analysis whatsover. (B16; 47)
Na proposição «Uma linha recta é a distância mais curta entre dois pontos no espaço» encontramos duas características que, argumentaremos, conferem a P-SA um estatuto especialíssimo.

[§35] A primeira dessas características é a necessidade. Esta foi também identificada por Kant: "Now, experience indeed teaches us that something is so or so, but not that it cannot be otherwise. Firstly, then, if we have a proposition which is thought in conjunction with its own necessity, we have an a priori judgement; and if, besides this, it is not derived from any proposition except onde which has also the validity of a necessary proposition, we have an absolutely a priori judgement." Que «uma linha recta é a distância mais curta entre dois pontos no espaço» não é algo que pudesse não ser assim - tem de ser assim. Isto, de alguma forma, aproxima P-SA de P-AA, na medida em que coloca P-SA para lá da possibilidade de justificação: não se justifica o que é necessário. O ser necessário é o critério último de justificação per se. Em última análise, justificar que «Eurídice morreu» é provar que isso é necessário, que não pode não ser assim. A necessidade é o ser assim e apenas assim (o ser ⇔).

[§36] À segunda das duas características das P-SA prometidas em §34, chamaremos de adventismo, isto é, a capacidade de advento, de vir até. Que «uma linha recta é a distância mais curta entre dois pontos no espaço» é algo que se impõe sobre mim, algo que, para usar a brincadeira de §31, a rainha não pode mudar. Eu posso mudar os termos "linha recta" ou "pontos" (chamar, por exemplo, à "linha recta" "linha vrum-vrum-vrum" e aos "pontos" "miame-miame"), mas a ideia que a proposição exprime mantém-se inafectada por esse make-up linguístico-analítico. Seria tentador afirmar, então, que «uma linha recta é a distância mais curta entre dois pontos no espaço» é uma proposição auto-justificada, do tipo das que se especularam em §17. Porém, a nossa ver, mais do que auto-justificada, é uma proposição hetero-justificativa: P-SA justificam-se perante o outro, elas vão-se justifiar ao outro (que é S), vindo até ele. Há aqui uma clara analogia com o próprio ser humano, que é persona, etrusco para máscara: o homem está num teatro, num palco para ser visto, com um público que o reconhece. O homem é o πολιτικὸν ζῷον de Aristóteles (Pol. 1.1253a2), o animal social, que se move e compreende em sociedade, nasce e é baptizado, aceite na comunidade, dão-lhe um nome: ninguém se chama a si. Da mesma maneira, a verdade não se chama a si (não se auto-justifica), antes vai aos outros, que a reconhecem (hetero-justificação). Mais do que perante uma epi-fania (literalmente, algo como as coisas que brilham aqui), estamos perante uma pro-fania (as coisas que brilham para diante), não uma manifestação aqui, mas uma manifestação para ali, para o outro.

[§37] Da adopção do adventismo como critério de verdade, não advém - como muitos possam estar já talvez a pensar - que o mundo exterior exista necessariamente. Descartes, neste aspecto, poderá ajudar:
But my hearing a noise, as I do now, or seeing the sun, or feeling the fire, comes from things which are located outside me, or so I have hitherto judged. [...] Then again, although these ideas do not depend on my will, it does not follow that they must come from things located outside me [...] this is, after all, just how I have always thought ideas are produced in me when I am dreaming. " (Meditações, III. 38-9)
As impressões que me chegam e eu atribuo ao mundo exterior, elas sim, são com toda a certeza verdadeiras/adventícias. Não chegam, porém, para negar a ideia de que posso estar no Matrix. Dirão alguns que a ideia de Matrix já pressupõe a existência de um mundo real, mesmo se é um mundo real ao qual eu não tenho acesso. Seria aqui no entanto necessário argumentar que as impressões adventícias que permanentemente nos chegam e atribuímos a um mundo exterior; seria necessário provar, dizia, que elas necessariamente obrigam à existência de uma realidade exterior, de facto. Talvez assim seja, mas, porque esse não é o assunto do nosso enquiry e não vemos como determiná-lo possa, ou não, contribuir significativamente para a questão que aqui nos ocupa - o Trilema de Agripa -, esse será um caminho que aqui não vou percorrer. De dizer, apenas à laia de curiosidade, que sim, acredito num mundo exterior, mesmo se acredito também numa forma de matrix chamada kantianismo, cujo credo básico é a diferença entre númeno e fenómeno. Reconhecer como necessária a existência de uma realidade exterior a S (projecto que até nos parece assaz fazível, mas em que aqui não embarcamos) em nada alteraria o dito em §27 e isso é o que nos interessa, de momento. Proposições SE - e todas as proposições sobre o mundo exterior são necessariamente PE (é isso que significa "empírico") continuaram a poder ser legitimamente questionadas e sujeitas ao Trilema (veja-se abaixo): o que pode suceder é que, a dada altura em {s1}, se chega a uma proposição que postule a putativa (mas, vá lá, bastante provável) necessidade de existência de uma realidade exterior. A regressão infinita, (1), seria quebrada pela aplicação da teoria fundacionalista, refutação do Trilema prevista em §17. O que aqui se quer dizer, contudo, e com isto fechamos e resumimos o parágrafo é que, por um lado, aceitar o adventismo como associado à verdade não significa aceitar de imediato a realidade exterior, por outro lado, também não significa negá-la, mas tão somente que todas as proposições que se lhe referem, P-SE, estão sujeitas ao Trilema: ora este post é precisamente sobre que P1 é esse que inicia {s1}, qual a sua natureza.

[§38] De tudo quanto falámos acima percebe-se que a verdade está profundamente ligada à justificação. Não podia ser de outro modo: tudo o que é verdadeiro é justificado - poderá é suceder que S não seja capaz ou de apreender essa justificação (devido à sua finitude) ou de, sendo capaz, a reproduzir ou descobrir. Justificar é provar que é necessário. Kant diz que a necessidade não é própria das P-SE, mas é. Se é certo que a mesa em que escrevo podia não estar aqui, o certo é que está - portanto é necessário que esteja, porque está, de facto. As coisas podiam não ser como são, mas sendo como são, é necessário que o sejam (ou não o seriam!). Se o conceito de justificação foi dado como «o ser ⇔» (isto é, «o ser se e apenas se», comummente chamado necessidade), analisando melhor a definição reparamos que nela está já contida a verdade, que é «o ser», aquilo que é (que pode até ser o que não é: os predicados negativos podem ser sempre reformulados positivamente: «não é um cavalo» significa «é um não-cavalo», em que «não-cavalo» designa tudo excepto um cavalo). Verdade e justificação são conceitos enrolados como dois amantes. Toda a verdade é justificativa; toda a justificação correcta chega a uma conclusão verdadeira.

[§39] «A Eurídice morreu» não é necessário, pelo menos directamente. Pode ser que Eurídice tenha de facto morrido, mas a necessidade disso não emana da proposição per se, mas só de isso ser ou não verdadeiro: algo que a proposição, por si, não deixa saber. De facto, pode haver uma gigantesca cabala contra mim, para em fazer crer que Eurídice morreu. Para quem anda à procura de exemplos malucos sobre cabalas desse género, leia as discussões entre externalistas e internalistas (e.g.: num zoo, como possa saber que o que penso ser uma zebra não é, na realidade, uma mula pintada para parecer uma zebra, porque o zoo não tem dinheiro para uma zebra verdadeira? O exemplo não é meu, repito). Pelo contrário, que «uma linha recta é a distância mais curta entre dois pontos no espaço» é necessário: nenhuma cabala invalidaria isto. Se é necessário, é justificado a priori, se é necessário, é verdadeiro, se é verdadeiro e justificado, é conhecimento, se é conhecimento, então o Trilema está errado.

[1] Não entraremos aqui em grandes discussões sobre esta proposição porque 1) é geralmente aceite; 2) falamos disso mais abaixo.

BIBLIOGRAFIA:
Aristóteles, Política (Oxford, Clarendon Press.: 1957) (ed.: W. D. Ross). (disponível online na plataforma Perseus).
Descartes, Meditations on First Philosophy (CUP: 1996) (ed.: John Cottingham).
G. Diker, 'Descartes' Ontological Argument', capítulo 4 de Diker, Descartes (OUP: 1993), 153-176.
Kant, Critique of Pure Reason (Penguin, London: 2007) (transl.: Marcus Weigert baseado em Max Müller).

terça-feira, 21 de outubro de 2008

ANÁLISE DE (2) E (3)
(CIRCULARIDADE & ARBITRARIEDADE)

(21.10.2008)

[§18] Passemos agora à análise de (2). Prometemos em §3 ilustrar a seu tempo o ali dito e deslindar a macarrónica matemática. Por conveniência, recuperemos as nossas já icónicas personagens, Lorelei e Eufrosine, continuando a sua conversa depois de §9.
Euf.: Como sabes que ele nunca te mentiu?
Lor.: Ele mesmo, no outro dia, confessando-me a sua amizade, como prova dela, relembrou-me que, ao contrário do que faz com as outras pessoas & deuses, a quem, por gozo (e por ser esse o carácter dele), mente descaradamente, apenas pelo prazer infantil de ser maroto, a mim jamais me enganara.
Tornámos a resposta de Lorelei (P4) propositadamente longa para, o melhor possível, tentarmos nós, como um Hermes, enganar o leitor. Quem, porém, não perdeu o fio de Ariadne no labirinto da resposta de Lorelei, notou, certamente, de que esta enferma de um vício lógico: apresenta como justificação daquilo que pretende provar exactamente isso: aquilo que pretende provar. Se transformarmos, como até aqui temos feito, o diálogo num esquema lógico de proposições e silogismos, será então talvez mais fácil apercebermo-nos disso:
P1S3 (=P1S1 =CS2): O que Hermes diz é verdade.
P2S3(=P4): Hermes diz que nunca me mentiu.
CS3 (=P3 = P2S2): Logo, Hermes nunca me mentiu.
A primeira premissa do silogismo, P1S3, é a mesmíssima coisa que se tentou provar em S2 (é a conclusão deste), silogismo que não convenceu Eufrosine, que por isso continuou a pedir justificações, interrogando as premissas.

[§19] É preciso percebermos que, quando chegamos a S3, nada do que foi dito antes se encontra ainda justificado: pelo contrário, o diálogo prossegue em busca de uma justificação para as premissas que apoiavam os silogismos que apoiavam as premissas de P1, a proposição original, e conclusão do primeiríssimo silogismo, destinado, teoricamente, a prová-la.

[§20] Ou seja: se nada anterior está provado, e se Lorelei usa como uma das suas premissas (P1S3), para justificar uma proposição anterior (P3), uma proposição antiga (P1S1=CS2) que, porque não a conseguiu justificar na altura, é que tem agora de justificar a proposição, em que, seguindo {s1}, se encontra agora (P3); se, dizíamos, Lorelei recorre, para base de justificação do que agora tem em mãos (P3), a uma proposição (P1S1=CS2) que, em última análise, é o que, indirectamente, se encontra a tentar provar por meio da justificação da actual (P3); então, parece claro que incorre no pecado da circularidade, tomando por justificado aquilo que ainda não o está, criando uma cadeia de argumentos que morde a sua própria cauda, como um uroborus: essa é, aliás, a imagem mais perfeita deste género de argumentação.

[§21] À parte da diarreia diagética do parágrafo anterior, é bastante straightforward, para quem leia o esquema lógico de S3, que aquilo não pode, jamais, ser um argumento válido, partindo da mesmíssima coisa que intenta provar. Verifica-se assim a opção (2), prevista no Trilema. Isto constitui uma prova da impossibilidade do saber se, e apenas se, considerarmos que a circularidade de um argumento é um pecado lógico e automaticamente não o qualifica para ser (b), impossibilitando-o então de ser considerado conhecimento pela própria definição de conhecimento que demos (quanto àqueles que colocam esta em causa, a seu tempo, naturalmente, se discutirá isso). Um meio de desfazer o Trilema, então, será considerar que uma justificação circular é uma justificação válida: chamemos a esta hipótese COK - Circularidade OK. Não me parece que seja isto que o coerentismo (talvez a doutrina epistemológica mais próxima disto) defenda e, se não for, como penso, não o discutiremos aqui, pelo menos a este propósito não. No entanto, estou ainda a fazer as minhas leituras, para confirmar se esta minha impressão forte é verdadeira ou não.

[§22] Retomemos a conversa de Eufrosine e Lorelei, mais uma vez a partir de §9.
Euf.: Como sabes que ele nunca te mentiu?
Lor.: Porque confio nele.
Euf.: Então, e porque é que confias nele?
Lor.: Ora! Porque confio nele e ponto final. Hoje deu-te para chatear! Queres vir ao velório ou não?
[§23] O que aconteceu foi que, muito simplesmente, Lorelei interrompeu {s1} numa proposição, não avançando nenhuma nova proposição em defesa desta última. Poder-nos-emos perguntar se esta paragem é, ou não, arbitrária, como (3) proclama. Tendo meditado sobre o assunto, parece-nos que, em obediência estrita à definição de conhecimento que demos em §1, e à lógica dedutiva do conhecimento que o Trilema pressupõe e desmascarámos no post anterior, não há senão duas possibilidades: ou a interrupção se dá numa proposição que exigiria justificação e para a qual S se recusa a apresentar justificação, pelo que, mesmo que até aconteça que a proposição seja verdadeira, ela será sempre não mais do que true belief e nunca justified true belief = knowledge; ou a proposição em que {s1} se interrompe é auto-justificativa, sendo que então o problema se põe nos termos expostos em §17, ou seja, em saber se proposições dessa natureza são ou não são possíveis.

[§24] Poder-se-ia, por fim, argumentar que o arbítrio é, em si mesmo, um critério de justificação, e que a proposição que interrompe {s1}, porque o faz arbitrariamente, se torna, automaticamente ou em certas condições a definir, (b). Isto parece-nos highly unlikely, e não cremos que seja uma objecção ao Trilema com pernas para andar. No entanto, em estrita obediência aos critérios metodológicos que nos têm guiado, aqui registamos esta possível forma de contornar o riso de Agripa (sim, que ele deve estar deliciosamente a rir-se de todos nós, os patetas).

Nos próximos posts, em princípio, mas sem promessa, analisaremos a natureza de S e P. Os critérios (a) e (b), da definição de conhecimento em que assenta o Trilema, serão ainda estudados. Depois de procedermos a estas investigações, e, no processo delas, identificarmos todos os putativos meios de derrubar o Trilema, entraremos na segunda fase do nosso enquiry, em que analisaremos exactamente esses mesmos possíveis meios de contornar o Trilema, inquirindo a sua legitimidade e capacidade para o fazerem. O essay, em princípio, conterá ainda uma terceira parte, em que se analisará uma possível objecção ao Trilema não tanto de pormenor, mas uma que o questiona na sua globalidade, impossível de ser contornada: não é o Trilema, em si mesmo, ao proclamar a impossibilidade de saber, mas apresentando-se como um item de conhecimento, um paradoxo? Esta é, por ora, a estrutura que pretendemos seguir: está sujeita, como até - e especialmente - as nossas opiniões, a mudanças.

domingo, 19 de outubro de 2008

ANÁLISE DE (1)
(A REGRESSÃO INFINITA)
(19.10.2008)

[§6] De acordo com (1), para justificação de um qualquer proposição (Pn), é necessária outra proposição (Pn+1) que torne Pn em Pn (b). Antes de analisarmos como se poderia objectar a isto, convém que analisemos com cuidado a claim feita em (1). Argumentaremos em seguida que, na realidade, Pn+1 esconde um silogismo, que, pela própria forma do silogismo, apresenta então não apenas uma proposição, mas duas, e que são essas duas que servem de justificação a Pn. As implicações disto serão expostas mais abaixo, revelando uma maior complexidade de (1) e do Trilema.

[§7] Tentemos ilustrar isto para o leitor comum. Veja-se o seguinte diálogo entre Lorelei e Eufrosine:
Lor.: A Eurídice morreu.
Euf.: A Eurídice? Não acredito.
Lor.: Disse-me o Hermes Psicopompo em pessoa.
É fácil identificar a primeira fala de Lorelei com P1 e a segunda com P2. Como dito em §6, a uma análise cuidada, porém, revela-se que P2 é, na realidade, não uma proposição isolada (ainda que seja nessa forma que se manifesta), mas sim um silogismo, S1 (não confundir com {s1}, definido em §3 como a sequência de proposições de uma regressão infinita). De facto, P2, per se, não torna P1 (b): não justifica nada, aliás. P2 só pode tornar P1 (b) se, e apenas se, entendermos P2 como uma das premissas de S1. Assim,
P1: A Eurídice morreu.
P2: Disse-me o Hermes Psicopompo em pessoa.
em que P2 é
S1
P1S1: O que Hermes diz é verdade.
P2S1 (=P2): Hermes disse-me que Eurídice morreu.
CS1 (=P1): Logo, Eurídice morreu.
legenda: P1S1 (primeira premissa do silogismo 1), P2S1 (segunda premissa do silogismo 1), CS1 (conclusão do silogismo 1).
Conclui-se assim que, na realidade, P1 é só metade justificado por P2. O que verdadeiramente justifica P1 são as premissas de S1, o qual engloba não só P2 (sobre a designação, nesse contexto, mais correcta de P2S1), mas também P1S1. É a combinação destas duas proposições (as premissas do silogismo: P, aliás, nas siglas dessas proposições, é abreviatura não de «proposição» mas sim de «premissa») que torna P1 (b).

[§8] Se P1 é (b) em virtude de P1S1 e P2S1 juntas, então, de acordo com (1), é necessário justificar não apenas P2 (=P2S1), mas também P1S1.

[§9] Continuemos o eavesdropping:
Euf.: O Hermes é um brincalhão. Como sabes que ele não te estava a enganar?
Lor.: Ele a mim nunca me mentiu.
Eufrosine questionou P1S1 e, em resposta, Lorelei apresentou P3, que sabemos, em virtude do exposto em §7, não ser mais do que P2S2. O esquema lógico em baixo explicará porventura isto melhor:
P1S2: Hermes não altera o seu comportamento.
P2S2 (= P3): Hermes nunca me mentiu antes.
CS2 (= P1S1): Logo, o que Hermes diz agora é verdade.

[§10] O que Eufrosine questionou foi o critério de verdade utilizado por Lorelei. De uma maneira geral, P1S1 tende a ser, de facto, mais ou menos conscientemente, um critério de verdade. O problema com apresentar um critério de verdade (CV) será que I («I» significa o interlocutor de S, neste caso, Eufrosine, sendo Lorelei a encarnação de S) quererá de imediato uma justificação desse mesmo critério, i.e., razões para aderir a ele, ou seja, quer confirmar que P1S1 é (b).
Isso o que sucede em §9, em que o nosso S, Lorelei, procura justificar, via duas novas proposições (P1S2 & P2S2), P1S1, o CV usado para justificar P1. O problema com isto é que:
α) para S apresentar P1S2 & P2S2 é porque acredita nelas;
β) se acredita nelas é porque as considera verdadeiras;
γ) se as considera verdadeiras, está a pressupôr um CV (chamemos-lhe CVb) que as torna verdadeiras;
logo
δ) ou CVb (que justifica/torna verdadeiras P1S2 & P2S2, que em conjunto justificam P1S1, que, por sua vez, é o CV - chamemos-lhe CVa - usado para justificar P1, a proposição original); ou, dizíamos, esse CVb ≠ CVa, e, então, as dúvidas levantadas em torno da legitimidade de CVa aplicam-se também com propriedade a CVb, forçando à justificação desse, e lançando-nos na regressão infinita prevista em (1)
ε) ou CVb = CVa, usando-se assim como justificação aquilo que se procura precisamente demonstrar: o argumento é circular e confirma-se a previsão (2) de Agripa.

[§11] Assim, se, mais adiante no nosso enquiry, não conseguirmos vislumbrar forma ou de desmontar (1), revelando as suas pretensões infinitas falsas, ou de quebrar (2), mostrando-o não necessariamente inválido, de um ponto de vista filosófico, então, somos forçados a concluir que, em obedeciência à sabedoria de Agripa, é impossível a justificação de qualquer CV, pelo que, a priori, uma vasta proporção de enunciados, são logo impossíveis de justificar (confirmando desse modo o Trilema), pela razão, descrita em §10, de que a maioria das proposições originais (P1) são justificadas, pelo menos em metade, por um P1S1 que é um CV, quer S disso se aperceba ou não.

[§12] Outro, porém, poderia ter sido o caminho da conversa. Num universo paralelo (aqui professo a minha fé neles), Eufrosine, em vez de ter interpelado Lorelei a respeito de P1S1, poderia tê-la questionado sobre P2S1, mais facilmante chamada de P2. Escuta, Israel e leitor do blogue:
Euf.: Como sabes que Hermes te disse isso e que não estavas apenas, por exemplo, a sonhar?
Lor.: A sua voz foi clara e distinta.
Não porque isso tenha, aqui e agora, particular interesse, mas tão somente para manter coerência com a metodologia que temos vindo a seguir, demos a formulação lógica disto:
P1S2b: O que é claro e distinto é verdadeiro.
P2S2b (=P3b): A sua voz foi clara e distinta.
CS2b (= P2 = P2S1): Logo, foi Hermes em pessoa que me disse que Eurídice morreu.
(legenda: o b é usado aqui para mostrar que este é o silogismo que decorre da segunda premissa de S1, por oposição a S2 que é baseado na primeira premissa de S1: S2 e S2b, porém, é que, em conjunto, seriam eventualmente capazes de justificar as premissas de S1, validar a conclusão deste e, assim, justificar P1)

[§13] Com S2 e S2b, como se acabou de dizer, P1 seria (b) (note-se o condicional «seria»: não o é, porque, de acordo com (1), as premissas dos dois silogismos precisam agora elas de justificação). Como se viu em §10, há, de facto, uma tendência para as proposições, quando desdobradas em silogismos, conterem um critério de verdade implícito numa das premissas, critério esse que, obviamente, é normal que I (o «interlocutor», relembramos) venha a questionar. Assim, desdobrando P3b no silogismo S2b, descobrimos em P1S2b um CV: «o que é claro e distinto é verdadeiro» (este é, como se sabe, o CV de Descartes, mesmo se aqui, propositadamente, καὶ παίζων (Pl. Smp. 172a.4), fazemos misuse dele). Talvez se pudesse arriscar dizer que, a dada altura em {s1}, forçoso será que se aborde a questão do CV. Não ousamos no entanto fazer tal ousada afirmação, pelo menos por ora. Poderá ser que, no decurso da nossa investigação, até venhamos a descobrir algo sobre esta matéria: tal não sucedeu ainda, porém. (aqui se agradeceriam muito sugestões dos leitores).

[§14] Ainda que a objecção levantada por Eufrosine, no universo alternativo, seja perfeitamente válida de um ponto de vista filosófico, é indubitável, cremos, que, numa conversa normal, a objecção mais rapidamente levantada a S1 centrar-se-ia em P1S1 e não em P2S1. Meditando sobre a questão, pareceu-nos constarar que há, de facto, uma tendência para que seja a premissa não-explicitada (P1S1, ou confirme o leitor com os demais exemplos: P1S2 e P1S2b) aquela a que I mais rapidamente levanta objecções (e I é um elemento fundamental para que o Trilema funcione). Não é por ser não-explicitada que ela deve ser mais ou menos objecto de interrogação no apuramento da verdade. É importante reter isto: toda a P1+x desdobra-se sempre num silogismo, que, pela própria definição de silogismo, tem duas premissas, ambas passíveis de dúvida (até prova em contrário, isto é, até se conseguir - se é que é possível, não o sabemos - desmontar o Trilema).

[§15] Do dito acima é forçoso concluir então que as proposições em {s1} crescem numa progressão geométrica (o que vai complicar ainda mais a justificação de P1). Significa isto, de acordo com a nossa investigação, que, ao contrário do que se diz, não basta justificar um dos membros da sequência {s1} para que de imediato os demais fiquem justificados automaticamente: o trabalho é bem mais árduo - é necessário justificar uma série crescente de proposições só para que uma (P1) seja justificada também.

[§16] Analisado exactamente o que (1) implica, resta agora determinar como eventualmente poderia o argumento da regressão infinita ser desfeito. Não era óbvio antes, mas vimos como cada proposição avançada em defesa de outra esconde, na realidade, um silogismo do qual dedutivamente se conclui a proposição que se quer defender e que justificou a apresentação desse mesmo silogismo. Tal estratégia de justificação, que o Trilema pressupõe, parte, por sua vez, do pressuposto que a verdade é de natureza dedutiva e só as justificações dedutivas são portanto válidas. Um meio de destruir (1) - e, desse modo, o Trilema - seria provar que há meios não-dedutivos de justificação de proposições. Chamemos a esta técnica: JND - Justificação Não-Dedutiva. Se é ou não possível argumentar a favor disto, será algo com que nos preocuparemos numa fase mais adiantado do nosso ensaio.

[§17] Um segundo meio de rebater (1) seria argumentar que nem todas as proposições exigem um silogismo que as defenda e justifique, defendendo que algumas se justificam a si mesmas e são válidas per se, sem necessidade de nova proposição/silogismo que as torne (b). Precisaríamos no mínimo, claro, de duas dessas proposições auto-sustentáveis, que se articulassem num silogismo para criar novo conhecimento (a não ser que o paradigma do silogismo fosse ultrapassado e de uma só proposição auto-justificada construíssemos todo o resto do edifício do saber. um homem propôs mais ou menos isso: Descartes - se podemos dar a nossa opinião sobre o assunto, falhou redondamente).
O fundacionalismo defende precisamente isto: a existência de crenças básicas, auto-evidentes e auto-justificadas, sobre as quais todo o restante saber deve ser construído. É o que Sosa (1995: 342) e outros designam como o modelo da pirâmide, em que o vértice seria P1, a proposição original, e a base seria constituída pelas crenças básicas que, directa ou indirectamente, justificam P1. Os argumentos fundacionalistas serão, como é fácil perceber, analisados com cuidado aqui, a seu tempo: por ora, é ainda cedo. Fica a nota de que isto poderá ser, se resultar, um caminho para destruir o Trilema.

BIBLIOGRAFIA:
E. Sosa (1995), ‘The Raft and the Pyramid’, Moser & Vander Nat (eds.), Human Knowledge (OUP), 341-356.

sábado, 18 de outubro de 2008

INTRODUÇÃO
& EXPOSIÇÃO DO TRILEMA

(18.10.2008)

[§0] A nossa investigação centrar-se-á no chamado Trilema de Agripa, também conhecido como Trilema de Münchhausen. O trilema conclui positivamente pela impossibilidade do conhecimento humano. O nosso objectivo será perceber em que medida essa proposição é, ou não, correctamente justificada pelo trilema. Este poder-se-ia resumir no seguinte esquema:

[§1] Assumindo que S (sujeito) considera P1 (uma proposição)
(a) verdadeira e
(b) justificada
(reunindo-se assim as três condições clássicas para que uma qualquer proposição seja catalogada como um item de conhecimento [1] - cf. Pl. Smp. 202a.5), então, uma de três coisas acontece:

[§2] (1) para que P1 seja (b), S tem de apresentar P2, isto é, nova proposição que justifique a anterior. A P2 passa então automaticamente a aplicar-se quanto se disse em §1 para P1. P2, portanto, para ser (b), força S a apresentar P3, e assim sucessivamente, ad aeternum, no que os filósofos designam de regressão infinita.

[§3] (2) algures, na sequência infinita de justificações acima descrita, chamemos-lhe {s1}, para justificar P1+x (isto é, uma qualquer proposição de {s1} que não a proposição primeira, P1), S apresenta a proposição P1+(<x) em que x={N}. Traduzindo a matemática macarrónica, estamos perante um argumento circular, em que S, a dada altura de {s1}, acaba por recorrer a uma proposição que já ocorrera anteriormente em {s1}. Um exemplo ilustrado disto será apresentado mais tarde.

[§4] (3) {s1} é suspensa arbitrariamente, numa qualquer proposição.

[§5] (1) é impossível de realizar, visto pretender-se infinito; (2) e (3) são normalmente descartados em Filosofia sob a justificação de que são incapazes de tornar Pn (isto é, uma qualquer proposição) em Pn (b), ou seja, uma proposição justificada. As objecções que se podem levantar a isto ("um argumento circular é necessariamente um mau argumento?", por exemplo) serão listadas, em princípio, no próximo post, e analisadas depois mais tarde, a seu tempo. Por ora, nesta fase do nosso enquiry, de acordo com o Trilema e o senso comum, quer popular, quer filosófico, parece claro que qualquer fundamentação do saber humano é, a priori, uma empresa condenada.
*
[1] O verbo empregue na formulação da premissa, «considerar», é por nós entendido como pressupondo uma crença activa por parte de S em P1. Assim, o elemento crença, o terceiro da definição clássica de conhecimento (true justified belief), encontra-se aí implícito.

Primeiro Ensaio: Epígrafe


"Knowing that you don't know is the most essential step to knowing, you know?"
Charlie Kaufman, Synecdoche, New York
(clicar no poster, se faz favor)

Primeiro Ensaio: Intro

Os próximos posts - identificados facilmente por uma minerva manga - serão devotados a uma experiência académico-filosófica. Tendo de escrever um essay para efeitos da avaliação à cadeira de Introduction to Philosophy A (a bem dizer são até dois: mas uma coisa de cada vez), resolvi ir partilhando aqui as minhas filosofias sobre o assunto que escolhi para a minha escravatura (palavra derivada do verbo escrever). Os posts terão um conteúdo filosófico maioritariamente pesado (depois do heavy metal, a heavy philosophy), mas tentarei sempre explicar as coisas de tal forma que o leitor curioso, se a isso se predispuser, possa seguir o meu raciocínio. Procuro assim fazer uma coisa nova: co-filosofar. A ideia, de facto, é que as pessoas que vão passando e lendo vão activamente comentando (e, sobretudo, criticando) o que vai ser dito, para que, com esse feedback, possa melhorar o meu ensaio, mas sobretudo os meus argumentos. Aos que tiverem essa paciência e se dêem a esse trabalho, desde já o meu profundo e sincero obrigado. A maioria dos parágrafos, para facilitar a discussão, estarão numerados, com o seguinte símbolo §. Devo alertar que não sei para onde vou. Investigo o assunto em mãos sem imaginar a que casa me leva. Não é difícil adivinhar pois, que hei-de, no caminho, reformular repetidas vezes as minhas opiniões - mas também para isso é tão importante o vosso comentário. Senhoras e senhores, o tema:
«What should we conclude from Agrippa's Trilemma?»

~ imagem: platão num cadeirão ~

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Introdução & Explicação

É importante não desprezar a culinária ou o james olivier. A cozinha tem um velho namoro com a filosofia e a estória da cadeira é pródiga em exemplos disso. Sócrates, na sua sherlockholmice da verdade, usava não raro o exemplo da arte do ratinho remy para desmontar argumentar alheios e construir os próprios, brincando assim feliz aos legos com a verdade. Platão escreveu sobre um banquete em que nunca esteve e eu estou agora a ler-estudar em grego (e garanto que há comida e bebida, mas não sei se chega para todos). Pitágoras que tinha netos a caminho de siracusa morreu em frente a um campo de favas que se recusou a atravessar (tinha votado não no referendo e as favas descascadas lembram embriões humanos). A máxima délfica de Sólon do μηδὲν ἄγαν deriva directamente das indigestões e Descartes, com fome, comparava os nossos conhecimentos a maçãs (e dizia que era preciso esvaziar o cesto-cabeça delas todas todas todinhas, porque uma só, podre, carunchava sozinha o resto). Newton, por causa de uma maçã, ganhou um galo na cabeça (um cocorocó, de facto, alimenta mais). E Hegel confessava que, a seguir a Napoleão, a melhor coisa do mundo eram os croissants franceses (obviamente, não conhecia os cookies ingleses). O filosófo é constantemente chamado à realidade pelo houston do seu estômago e interrompe assim apressado o ramadão de pensar. Sabedoria, de resto, vem do verbo sapio, em latim (as palavras latinas são membras honorárias da associação de famílias numerosas), que significava saborear. O elo mais importante no diálogo dos dois saberes, porém, é o senso-comum de que a Filosofia não dá de comer a ninguém.

(segredo: a Filosofia é alimento* - do pensamento)
*alimento pesado, como uma feijoada ou um cozido.
(onde estão os croissants de pensar?)

~imagem: o pensador de rodin leva a mão à boca para comer~